Uma vez eu paguei 5 reais (em 2002 era muito dinheiro) pra um colega do colégio baixar as músicas que eu queria ouvir e gravar num cd. Eu dividia um Windows 95 de internet discada com meus dois irmãos e, sabe-se lá porquê (homem, mais velho), meu irmão sempre tinha prioridade pra usar, ainda que isso não fosse abertamente combinado. Pois bem, esse colega de sala fez um disco pra mim com esses hits que eu ouvia na 98 e via no Disk, TVZ e no Plug & Play. A música que eu mais queria ouvir era Misunderstood, do Bon Jovi (rindo, mas eu era fascinada com o clipe), e ele baixou um mp3 defeituoso que só tocava 26 segundos dela. Pra sempre cantei só até i should have shut my mouth, things he-. Só fui ouvir de novo essa canção quando a internet do prédio melhorou e eu aprendi a baixar música – nem sei quando foi isso.

Isso foi em 2002 e hoje, 18 anos depois, saímos da era do acesso zero para o que vimos agora, que é basicamente uma sensação diária de socorro, como eu vou fazer para ouvir todos estes discos maravilhosos. Eu lembrei dessa história idiota porque fiquei pensando sobre como os algorítimos nos fazem chegar até às músicas que gostamos com muita rapidez. Não vou ter tempo de ouvir tudo, então as Descobertas da Semana ou o Release Radar tomam como base ouvintes com gosto parecido com o meu e me oferecem coisas que estão nesse mesmo universo. Se o resultado disso é conhecer muitas bandas incríveis (amo), o efeito colateral da personalização é nunca mais sair da nossa zona de conforto.

Pois é.

Vamos à pergunta do título: como, na era da disponibilidade quase irrestrita da informação, a gente acaba sempre voltando ao nosso quadradinho? Como escapar desse quadradinho, sendo que a própria escapada do quadradinho também está prevista pelo algoritmo? Como ouvir música nova, realmente nova, livre de interesses comerciais, de gravadoras, jabás, publis? Não faço ideia, realmente. Mas o mais próximo disso que eu já consegui foi usando um site de… capas de discos!

Ao acessar o Predominant.ly, esta é a imagem que vai aparecer na sua tela. Ao colocar o mouse aleatoriamente sobre uma cor, o resultado mostra uma série de capas de discos cuja cor predominante é aquela escolhida.

O site foi criado por quatro designers e o texto de apresentação recupera um pouco da sensação de caçar discos nas lojas especializadas – atividade que parece um bocado obsoleta hoje em dia. Em tradução minha:

Você se lembra daqueles dias sombrios de outono em que passava horas em uma loja de discos, navegando ociosamente pelas prateleiras, escapando da chuva. Você escolheu um álbum como se tivesse visto quatrocentos outros álbuns naquele dia, mas este, você sabia, era especial. Você não conhecia a banda, nem sabia o tipo de música que tocavam, mas apenas pela capa, você sabia que isso seria especial.

A proposta é que, assim como fazia nas lojas de discos, você navegue ociosamente com o mouse pelas cores que gostar. A qualquer momento, é possível solicitar a geração de uma playlist clicando no link do Spotify (por exemplo, essa Medium Electric Blue que, em 2016, me fez apaixonar por uma canção do Black Keys), com dez músicas tiradas dos discos que aparecem na página da cor escolhida. Outra maneira de navegar é escrevendo o nome da cor (em inglês). A base de dados usada para as capas é a do Itunes (as capas que aparecem ficam, então, limitadas aos discos que estão na plataforma).

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