Hoje de manhã, antes mesmo de sair da cama, abri o Youtube e revi o vídeo de Hands Clean. O primeiro single do quinto álbum de estúdio da Alanis Morissette foi parte intrínseca do início da minha adolescência. À época do lançamento de Jagged Little Pill eu tinha 6 ou 7 anos, então Hands Clean (e o Under Rug Swept) foi o momento em que eu herdei do meu irmão o gosto por Alanis – numa fase bem mais fofinha, por assim dizer. 

Qual foi a minha surpresa ao perceber, então, que um clipe que eu vi todos os dias da semana no Disk MTV e todos os sábados no Top20 durante algumas semanas, trazia uma mensagem muito mais profunda do que eu conseguia perceber 16 anos atrás?

Por trás do pop fofinho com cara de hit pra alavancar um disco mais ou menos, por trás de um clipe metalinguístico, a verdade é que Hands Clean esconde importantes mensagens sobre como funciona a indústria.

O livro Fama e Loucura: entrevistas censuradas com os maiores artistas do planeta, do repórter do New York Times e da Rolling Stone Neil Strauss, revela um pouco do contexto por trás do single de 2002.

“Em 2002, Alanis Morissette lançou o primeiro álbum que produziu sozinha. Como parte de sua emancipação, ela cantou sobre uma de suas primeiras experiências de exploração na indústria da música: quando ela foi pressionada aos 14 anos para ter um relacionamento com seu produtor de 29 anos. A música “Hands Clean” provavelmente foi o primeiro single que lidava explicitamente com o estupro estatutário a chegar à parada das quarenta mais tocadas.

Neil Strauss: Fico surpreso que sua gravadora tenha deixado “Hands Clean” ser lançada como primeiro single, pois é muito controversa.

Alanis Morissette: Algumas pessoas da gravadora sabiam exatamente do que se tratava, outras, não. Mas acho que quando expliquei a elas fez um pouco mais de sentido.

Neil Strauss: Quanto você contou a elas sobre o assunto?

Morissette: Contei tudo, menos a identidade da pessoa.

Neil Strauss: Você queria escrever sobre isso há muito tempo?

Morissette: Eu queria enfrentar a verdade em relação a isso comigo mesma havia muito tempo. Acredito que haja uma clara diferença entre privacidade e sigilo, e por muito tempo coloquei os dois na mesma categoria. Mas aí me dei conta de que o sigilo prejudica minha própria paz de espírito e a mim mesma, e que posso ao mesmo tempo manter minha cabeça na privacidade e ser autêntica e transparente. Então foi um momento de grande revelação. Também sei que tenho um longo caminho pela frente, especialmente nesse assunto (pausa, ri). E tenho um longo caminho pela frente em todos os outros departamentos, é óbvio”.

Eu nunca tinha ouvido falar nessa expressão, estupro estatutário, até ontem à noite, quando minha amiga me enviou a entrevista. Fui dormir pensando que, por conter a palavra estatutário, a situação tinha algo a ver com um estupro ligado a uma questão laboral. Fazia sentido na minha cabeça, uma vez que estávamos falando de um produtor de 29 anos (a minha idade hoje) e uma criança de 14.

Hoje cedo, depois de rever o clipe depois de tantos anos, tive uma crise de choro que nem eu mesma entendi. Mesmo antes de pesquisar que, na verdade, a expressão diz respeito ao estupro de vulnerável (expressão mais conhecida), ou seja, uma relação sexual não consensual com uma pessoa de menos de 14 anos, essa história deu voltas na minha cabeça. A ideia de um estupro vinculado a uma situação de trabalho não me surpreendeu porque ela é muito real.

Enfim, esse não é um texto sobre capa de disco, mas sobre esse depoimento da Alanis e como a história dela acaba dialogando com a de algumas de nós:

Neil Strauss: Essa experiência afetou sua confiança em outras pessoas da indústria da música?

Morissette: Sim, com certeza. Tive problemas de confiança até, sabe, trinta segundos atrás, no mínimo. Isso formou minha visão não só da indústria, como também da sociedade em termos de patriarcado e luta pelo poder e tudo isso”.

single promocional japonês: Alanis Morissette – Hands Clean (Canadá, 2002)

single promocional japonês: Alanis Morissette – Hands Clean (Canadá, 2002)

Observar Alanis constrangida em um restaurante japonês ao ver entrar um homem com muitos anos a mais que ela me fez pensar em todas as situações em que eu me vi constrangida pela invasão do meu espaço feita por homens muito mais velhos que eu. Mas o sorriso final do clipe mostra também uma Alanis enfim em paz com a história. O episódio traumático se tornou uma melodia pop com uma letra que abre para diversos níveis de interpretação. Aliás, vale uma visita à página do Genius dessa música, que traz outros trechos de entrevistas em que ela aborda o assunto.

Ao mesmo tempo, revisitar o clipe me fez ver, por trás da mensagem mais óbvia, um outro aspecto. Numa camada mais leve, estamos falando de um clipe metalinguístico, que mostra temporalmente todas as etapas da criação de uma música (dentro de uma grande gravadora): começando pela composição, gravação em estúdio, aprovação pelo empresário da gravadora, produção de capa e vídeo promocional, divulgação em rádios e shows. Curiosamente – ou não – todos os profissionais com os quais Alanis têm de lidar são homens, com exceção de três assistentes que aparecem na produção das fotos e do vídeo. Isso foi proposital? ¯\_(ツ)_/¯

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